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O xadrez de 2026 ditado da cela: como Bolsonaro tenta tutelar o PL e antecipar palanques

 Isolado nas instalações do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) decidiu não esperar as engrenagens partidárias se moverem sozinhas. Em meio a relatos de saúde fragilizada, ele começou a ditar, diretamente da prisão, os nomes que devem encabeçar as chapas do partido nas eleições de 2026. A revelação, feita no último fim de semana pelo vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), expõe a urgência do clã em blindar seu capital político e evitar que a legenda escape de seu controle em meio ao avanço das investigações.


A ofensiva ocorre em um cenário atípico. Carlos Bolsonaro foi a público relatar que o pai, a quem chama de "preso político", tem sofrido com crises severas de vômito na carceragem da chamada Papudinha. A narrativa de martírio, no entanto, divide espaço com um pragmatismo agressivo: segundo o vereador, o ex-presidente continua "focado e lúcido", costurando uma lista inicial de pré-candidatos aos governos estaduais e ao Senado. O recado é claro para a cúpula do PL, controlada por Valdemar Costa Neto: quem dá as cartas na base conservadora ainda é a família.


A estratégia bolsonarista mira alvos de altíssimo valor institucional. O foco principal é o Senado Federal, casa responsável por sabatinar — e eventualmente processar — ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). No Distrito Federal, o deputado Ubiratan Sanderson (PL-RS) já verbalizou a diretriz depois de visitar a prisão: o bolsonarismo apostará suas fichas na popularidade da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e na deputada federal Bia Kicis.


A lógica de ocupação e fidelidade se repete nos tradicionais redutos de direita. Em Santa Catarina, estado que conferiu vitórias esmagadoras ao ex-presidente, a família planeja uma entrada direta no pleito, com Carlos Bolsonaro de olho no Senado e Renan Bolsonaro testando o nome para a Câmara dos Deputados. Já em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, coube ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) receber o aval para unificar as chapas de direita e tentar barrar qualquer avanço do PT no estado.


A cabeça de ponte no Nordeste: o fator Flávio Moreno e a força conservadora

A engenharia eleitoral de Bolsonaro sabe, contudo, que a hegemonia nacional esbarra historicamente na complexidade do Nordeste. Em Alagoas, terra dominada por oligarquias tradicionais e reduto do presidente da Câmara, Arthur Lira, o ex-presidente fez questão de carimbar um nome de sua estrita confiança. O apoio declarado da família Bolsonaro a Flávio Moreno, pré-candidato a deputado federal, vai muito além do preenchimento de uma vaga na chapa do PL. É um recado sobre o perfil exigido pelo QG bolsonarista para 2026: a lealdade inegociável.


Num momento em que parte do PL flerta com a moderação ou busca acomodação junto à máquina federal e ao Centrão fisiológico, a chancela a Moreno premia a resiliência. O alagoano manteve-se alinhado às pautas conservadoras e defendeu o clã mesmo nos momentos de maior turbulência jurídica e isolamento do ex-presidente. Para a família Bolsonaro, eleger quadros com esse nível de fidelidade orgânica em estados nordestinos é a garantia de que a bancada não irá se fragmentar ou ceder a pressões do Palácio do Planalto nos próximos anos.


Mais do que isso, o movimento em Alagoas ilustra a musculatura que a direita planeja exibir nas urnas de 2026. A aposta não é mais apenas resistir, mas avançar com força total sobre os rincões controlados pela esquerda. A articulação em torno de nomes leais como o de Moreno demonstra que o bolsonarismo projeta uma onda conservadora capaz de rivalizar com o lulismo em seu próprio quintal. A meta é clara: transformar a indignação com a prisão de seu líder em combustível eleitoral, provando que a direita chega a 2026 não apenas viva, mas altamente mobilizada e capilarizada.


Os limites da tutela


A antecipação dessa corrida prova que a reclusão não paralisou o instinto de sobrevivência política de Bolsonaro. A Papudinha converteu-se em um inusitado QG eleitoral, palco de romarias de parlamentares em busca de diretrizes. O verdadeiro teste dessa demonstração de força, porém, passará por dois funis fora das urnas: a capacidade de Valdemar Costa Neto de acomodar essa imposição de lealdade sem implodir os arranjos regionais do partido, e o olhar atento da Justiça Eleitoral sobre os limites de uma campanha desenhada e articulada a partir do cárcere.

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